Queda de cabelo com Mounjaro: o que a ciência já sabe sobre esse efeito
- 8 de jul.
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Uma paciente em uso de tirzepatida ou semaglutida chega ao consultório relatando queda de cabelo e pergunta se é o medicamento o responsável. Essa cena se repete com frequência crescente na prática clínica, e a resposta que você dá nesse momento importa: existe base científica para explicar o que está acontecendo, e ela aponta para uma direção diferente da que costuma circular nas redes sociais.
O que os estudos mostram
Na bula oficial dda tirzepatida, atualizada pela FDA em outubro de 2024, a queda de cabelo aparece registrada com uma diferença relevante entre sexos: 7,1% das mulheres em uso do medicamento relataram o efeito, contra 1,3% no grupo placebo. Entre os homens, a proporção foi de 0,5% contra 0%. Nos estudos com semaglutida, o padrão se repete: alopecia relatada com maior frequência no grupo tratado do que no placebo, concentrada principalmente nos pacientes que apresentaram as maiores perdas de peso.
Essa diferença entre mulheres e homens não é um detalhe menor, e ajuda a entender a natureza do quadro. O efluvio telógeno se manifesta como um afinamento difuso por todo o couro cabeludo, e tende a ser percebido mais precocemente por mulheres, tanto por questões de densidade e comprimento capilar quanto pela maior atenção a mudanças na aparência do cabelo. Além disso, a concentração dos casos justamente entre quem perdeu mais peso é uma pista importante: aponta para a magnitude e a velocidade da perda como o fator determinante, e não para uma toxicidade intrínseca da molécula.
Ação direta no folículo ou efeito indireto da perda de peso?
Esse é o ponto que mais gera confusão nas pacientes, e também entre profissionais. A revisão sistemática mais recente e mais criteriosa sobre o tema, publicada em 2026 e registrada previamente no PROSPERO, buscou em quatro bases de dados (PubMed, Embase, Scopus e Web of Science) toda a evidência disponível sobre a relação entre agonistas do receptor de GLP-1 e queda de cabelo. De 133 estudos identificados, 24 preencheram os critérios de inclusão. A conclusão foi: até o momento, não existe evidência direta em humanos de que esses medicamentos ajam sobre o folículo piloso. A explicação mais embasada continua sendo o efluvio telógeno desencadeado pela perda de peso rápida e pelo estresse metabólico associado a ela.
O que é o efluvio telógeno e por que a queda demora para aparecer
O fio de cabelo é um tecido morto. A parte viva está no folículo, onde ocorre um ciclo com três fases: crescimento (anágena), transição (catágena) e repouso (telógena), que termina com a queda natural do fio. Em condições normais, cerca de 85 a 90% dos fios do couro cabeludo estão na fase de crescimento a qualquer momento, e a queda diária é pequena e fisiológica. No efluvio telógeno, um estresse fisiológico importante faz com que uma proporção muito maior de folículos interrompa precocemente a fase de crescimento e entre em repouso ao mesmo tempo.

E aqui está o elo que explica por que a perda de peso rápida é um gatilho tão consistente: o folículo capilar é um dos tecidos de maior demanda metabólica do corpo, porque produz queratina de forma contínua, um processo que consome energia e proteína em ritmo elevado. Quando o corpo entra em um déficit energético acentuado e uma perda de peso acelerada, ele prioriza a alocação de energia para órgãos vitais, como coração, cérebro e sistema imune, em detrimento de funções consideradas não essenciais para a sobrevivência imediata, e a produção capilar é uma delas. Essa espécie de triagem metabólica empurra os folículos para a fase de repouso. Some-se a isso o fato de que o déficit acentuado costuma vir acompanhado de ingestão proteica reduzida e, em alguns casos, perda de massa magra, o que agrava o quadro.
O fio permanece na fase de repouso por cerca de dois a quatro meses antes de cair, o que explica um padrão característico observado na prática: a paciente inicia a medicação, perde peso rapidamente, e só meses depois percebe o aumento da queda. Esse atraso é compatível com efluvio telógeno e incompatível com uma ação tóxica direta do medicamento sobre o folículo.
Nem toda queda de cabelo em uso de GLP-1 tem a mesma causa
Um ponto que merece atenção: o efluvio telógeno não tem um gatilho único, e reduzir a explicação a "perda de peso rápida" seria simplificar demais um quadro que pode ter múltiplas origens. A literatura documenta uma lista ampla de eventos capazes de desencadear esse tipo de queda, entre eles febre alta, infecção grave, cirurgia de grande porte, trauma físico importante, mudanças hormonais como as do pós-parto, hipotireoidismo, suspensão de medicação hormonal, estresse psicológico intenso, dieta muito restritiva e deficiência de ferro. Em uma parcela relevante dos casos, nenhum gatilho isolado é identificado. Por isso, diante de uma paciente em uso de GLP-1 com queda de cabelo, a investigação precisa considerar todo o histórico recente, e não presumir automaticamente que a causa é o medicamento ou o estado nutricional.

Apesar de a explicação por efluvio telógeno ser a mais embasada atualmente, é importante reconhecer os limites dessa evidência. A maior parte dos estudos disponíveis é observacional ou baseada em farmacovigilância, não em ensaios controlados desenhados especificamente para investigar esse desfecho, o que limita a força das conclusões sobre causalidade. Outros pontos de atenção:
Heterogeneidade dos casos: os subtipos de queda relatados nos estudos nem sempre são bem especificados, o que dificulta comparar achados entre pesquisas diferentes.Rastreio nutricional ainda não padronizado: diferente da cirurgia bariátrica, onde a avaliação nutricional pré-operatória já é protocolo estabelecido, ainda não existe um protocolo formal de rastreio nutricional para quem inicia agonistas de GLP-1, o que é apontado como uma lacuna clínica relevante.
Limitação dos exames: entre os marcadores nutricionais mais associados à queda de cabelo, o ferro e a ferritina têm relação mais consistente e são acionáveis clinicamente. Zinco, selênio e vitaminas do complexo B seguem um caminho diferente: a avaliação desses nutrientes é mais consistente quando feita a partir do recordatório alimentar, mapeando o padrão de ingestão e sinais clínicos de risco.
E a biotina, ajuda?
A biotina é hoje um dos ingredientes mais vendidos em suplementos de "cabelo, pele e unha", mas a evidência não acompanha a popularidade. Uma revisão sistemática publicada em 2026, registrada previamente no PROSPERO, reuniu os dez estudos humanos disponíveis relacionando biotina e queda de cabelo. A conclusão foi clara: deficiência clinicamente relevante de biotina é incomum em quem tem alimentação equilibrada, e a suplementação rotineira não é embasada por evidência consistente na ausência de deficiência documentada. Os poucos estudos que mostraram melhora combinavam a biotina com outras intervenções, como minoxidil ou dexpantenol, o que impede atribuir o efeito à biotina isoladamente. O benefício mais claro fica restrito a situações específicas: deficiência confirmada, síndromes genéticas raras, má absorção intestinal, nutrição parenteral prolongada, ou uso de medicações que podem interferir na biotina, como isotretinoína e anticonvulsivantes.
Um ponto de segurança que vale levar para a paciente: doses elevadas de biotina podem interferir em exames laboratoriais baseados em imunoensaio, incluindo função tireoidiana e troponina, a ponto de a agência regulatória americana ter emitido um alerta específico sobre o tema. Orientar a paciente a informar o uso de biotina antes de exames é uma conduta simples que evita resultados falsos e decisões clínicas equivocadas.
O que esses achados significam na prática clínica
Diante de uma paciente em uso de tirzepatida ou semaglutida relatando queda de cabelo, o primeiro passo é uma anamnese ampla, capaz de identificar outros gatilhos possíveis além do medicamento e da perda de peso. Vale investigar cirurgias ou doenças febris recentes, eventos de estresse importante, alterações hormonais, e o histórico de outras quedas ao longo da vida. Descartados esses outros fatores e investigada a possibilidade de causas dermatológicas ou hormonais pelo médico responsável, a parte que cabe ao nutricionista se organiza em algumas frentes complementares.
A primeira é rastrear carências nutricionais de forma ativa, avaliando a ingestão calórica total, o padrão alimentar a partir do recordatório e sinais clínicos de deficiência, e não apenas a ingestão proteica de forma isolada. A redução acentuada do apetite provocada por esses medicamentos pode levar a uma ingestão insuficiente sem que a paciente perceba, e é comum que o volume alimentar caia de forma expressiva nas primeiras semanas.
A segunda frente é a atenção ao ritmo da perda de peso. Uma perda muito acelerada é justamente o cenário de maior risco para o efluvio telógeno, então trabalhar para que o emagrecimento aconteça em um ritmo mais sustentável, dentro do que foi definido com o médico, é uma conduta que atua diretamente sobre o gatilho, e não apenas sobre as consequências.
A terceira é a preservação de massa magra, um ponto que a literatura vem destacando como fator protetor. Garantir aporte proteico adequado ao longo do processo e favorecer a manutenção muscular com estímulo à prática de exercício resistido, ajuda a reduzir o estresse metabólico global associado à perda de peso. Acompanhar os marcadores de ferro em mulheres na idade fértil completa esse raciocínio, já que são os marcadores com relação mais consistente com a queda.
O que dizer para a paciente no consultório
A pergunta que mais aparece é direta: "devo parar o medicamento?". E a resposta, na maioria dos casos, é que a decisão sobre o medicamento cabe ao médico prescritor, mas que a queda observada costuma ser um fenômeno passageiro ligado ao ritmo da perda de peso, e não um dano permanente ao cabelo. Explicar o intervalo de dois a quatro meses entre o gatilho e a queda ajuda a paciente a entender por que o cabelo pode estar caindo justamente agora, meses depois do início, e reduz a ansiedade que muitas vezes leva ao abandono precoce do tratamento. Deixar claro que se trata de um quadro tipicamente reversível, e que existe um plano de conduta nutricional para dar suporte a esse período, transforma um motivo de medo em algo compreensível e manejável.
A boa notícia é que, na maioria dos casos, o efluvio telógeno é reversível. Quando de natureza nutricional ou ligado ao ritmo de perda de peso, corrigido o quadro e estabilizado o emagrecimento, a densidade capilar tende a se recuperar dentro de alguns meses.
Se você deseja atender mulheres em uso de análogos de GLP-1 com mais autonomia:
BRANYICZKY, et al. Effects of GLP-1 Receptor Agonists on Hair Loss and Regrowth: A Systematic Review. International Journal of Dermatology, 2025. DOI: 10.1111/ijd.70133.
COHEN-KURZROCK, R. A.; COHEN, P. R. Bariatric Surgery-Induced Telogen Effluvium (Bar SITE): Case Report and a Review of Hair Loss Following Weight Loss Surgery. Cureus, v. 13, n. 4, 2021. DOI: 10.7759/cureus.14617.
GODFREY, H.; LEIBOVIT-REIBEN, Z.; JEDLOWSKI, P. et al. Alopecia associated with the use of semaglutide and tirzepatide: a disproportionality analysis using FAERS. Journal of the European Academy of Dermatology and Venereology, 2025.
GUPTA, A. K.; TEASELL, E. M.; ECONOMOPOULOS, V.; MIRMIRANI, P. GLP-1 therapies and hair loss: a systematic review of current evidence and implications for counseling. 2026. DOI: 10.1177/00368504261444578.
MOLTÓ-BALADO, P.; SIMEÓ-MONZO, A.; DEL BARRIO-GONZALEZ, A. Effectiveness of Biotin Supplementation for Hair Growth in Patients with Alopecia: A Systematic Review. Dermato, v. 6, n. 2, p. 17, 2026. DOI: 10.3390/dermato6020017.
Telogen Effluvium and Metabolic Stress in Modern Weight Loss Interventions: A Narrative Clinical Review. Brazilian Journal of Hair Health, v. 3, 2026.




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