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Novo consenso sobre GLP-1 amplia o olhar para nutrição, função muscular e comportamento alimentar

  • 28 de jul.
  • 11 min de leitura

O uso de medicamentos como semaglutida e tirzepatida aumentou de forma expressiva no tratamento da obesidade. Com isso, surgem novas demandas na prática clínica: como manejar a redução do apetite, prevenir inadequações nutricionais, acompanhar a massa muscular e identificar pacientes que precisam de um suporte mais próximo?


Em julho de 2026, a The Lancet Diabetes & Endocrinology publicou um consenso elaborado pela European Association for the Study of Obesity (EASO), pela European Federation of the Associations of Dietitians (EFAD) e pela European Coalition for People Living with Obesity (ECPO).


O documento reúne considerações nutricionais, funcionais e psicológicas para o acompanhamento de adultos em uso de terapias baseadas em incretinas, incluindo agonistas do receptor de GLP-1 e agonistas duais de GLP-1 e GIP.


Conseso publicado em Julho 2026
Conseso publicado em Julho 2026

A publicação chega em um momento importante. O uso desses medicamentos cresceu de forma expressiva e a discussão clínica já não pode ficar restrita à quantidade de peso perdida.


A redução do apetite, a menor ingestão alimentar, os efeitos gastrointestinais e as mudanças na relação com a comida criam demandas que precisam ser observadas durante todo o tratamento.


O principal mérito do consenso está em reconhecer que o acompanhamento deve ser proporcional ao risco de cada paciente. Ele não propõe uma bateria extensa de exames, suplementação obrigatória ou avaliação frequente da composição corporal para todas as pessoas que usam GLP-1.


A orientação é começar com um acompanhamento básico e ampliar a investigação quando houver sinais de vulnerabilidade nutricional, perda funcional ou maior complexidade clínica.


Nem toda paciente precisa do mesmo nível de acompanhamento

Há pacientes que iniciam o tratamento, toleram bem o medicamento e mantêm uma alimentação variada, mesmo com a redução do apetite. Nesses casos, orientações nutricionais estruturadas e acompanhamento periódico podem ser suficientes.


Outras desenvolvem náusea persistente, saciedade precoce intensa, vômitos, constipação ou uma redução muito acentuada da ingestão. Também existem situações em que a paciente já inicia o tratamento com maior risco nutricional, como ocorre em mulheres idosas, pessoas com fragilidade, sarcopenia, cirurgia bariátrica prévia, dietas muito restritivas, insegurança alimentar ou deficiências já identificadas.


O cuidado escalonado proposto pelo consenso ajuda a organizar essa diferença. A presença de obesidade não exclui desnutrição, baixa ingestão proteica ou deficiência de micronutrientes. Uma paciente pode apresentar excesso de tecido adiposo e, ao mesmo tempo, consumir uma dieta com pouca variedade e baixa densidade nutricional.


Na prática, o nutricionista precisa observar muito mais do que o valor calórico prescrito. É necessário entender o que a paciente realmente consegue comer, quais grupos alimentares desapareceram da rotina e como os sintomas interferem na alimentação.


Quando a redução da ingestão começa a preocupar?

Os autores utilizam a ingestão energética como um marcador indireto do risco nutricional. Uma ingestão inferior a 1.500 kcal por dia já merece atenção, especialmente quando está associada a uma dieta pouco variada.


Isso não significa que toda alimentação abaixo desse valor seja inadequada. A composição da dieta continua sendo decisiva. Uma paciente pode consumir 1.400 kcal com fontes adequadas de proteínas, frutas, vegetais, leguminosas e laticínios. Outra pode consumir mais energia e ainda apresentar baixa ingestão de ferro, cálcio, vitamina B12, folato e fibras.


Quando a ingestão permanece abaixo de 1.200 kcal por dia, o consenso sugere considerar um multivitamínico e mineral completo. A mesma conduta pode ser avaliada quando a ingestão energética é maior, caso a qualidade da alimentação seja insuficiente.


O ponto mais preocupante aparece quando a paciente permanece abaixo de 800 kcal por dia e não consegue atingir as necessidades nutricionais mesmo após intervenção. Nessa situação, a equipe deve avaliar a necessidade de adiar a progressão da dose, reduzir a dose, realizar uma pausa temporária ou interromper o medicamento nos casos mais graves.


Esse é um recado importante. A ausência de fome não deve ser tratada como o principal objetivo do tratamento. Uma dose que impede a paciente de comer de forma minimamente adequada pode estar acima do que ela consegue tolerar naquele momento.


Multivitamínico não deve ser automático

O consenso não recomenda multivitamínicos para todas as pessoas que usam GLP-1. A suplementação deve ser guiada pela alimentação e pelo risco individual.



Uma paciente que mantém boa variedade alimentar, mesmo com menor volume de comida, pode não precisar de um suplemento completo. A indicação ganha sentido quando a ingestão é muito baixa, a dieta perdeu qualidade, existem restrições importantes ou os sintomas gastrointestinais dificultam o consumo regular de alimentos.


Também é necessário observar tudo o que a paciente já utiliza. É comum encontrar a combinação de multivitamínico, fórmula para cabelo, vitamina D, ferro, magnésio e produtos proteicos enriquecidos. A sobreposição pode elevar desnecessariamente a ingestão de alguns nutrientes.


Pacientes que já realizaram cirurgia bariátrica constituem um grupo específico. Nesses casos, o uso de GLP-1 não substitui os protocolos de suplementação e monitoramento recomendados para o procedimento cirúrgico.


Exames laboratoriais devem responder a uma pergunta clínica

Outro ponto positivo do documento é evitar a ideia de que toda paciente precisa realizar uma extensa investigação bioquímica apenas por utilizar semaglutida ou tirzepatida.


Hemograma, ferritina, estudos do ferro e vitamina B12 podem ser considerados quando houver sinais clínicos ou fatores de risco. Folato, vitamina D, cálcio, paratormônio, magnésio e albumina entram conforme o contexto.


A investigação ganha relevância diante de fadiga persistente, queda de cabelo, vômitos prolongados, ingestão muito reduzida, dieta vegetariana ou vegana, idade avançada, anemia prévia, cirurgia bariátrica ou doenças que aumentam a vulnerabilidade nutricional.



A decisão deve partir da avaliação clínica. Solicitar muitos exames sem uma hipótese definida aumenta custo e pode gerar achados de pouca relevância. Deixar de investigar uma paciente com sinais claros de deficiência também compromete a segurança do acompanhamento.


A recomendação de proteína precisa ser interpretada com cautela

O consenso propõe uma ingestão de 1,0 a 1,5 g de proteína por quilo de peso ajustado durante a fase de perda de peso, respeitando um mínimo de 60 g por dia. Para a manutenção, sugere aproximadamente 0,8 a 1,0 g por quilo de peso ajustado.


Os próprios autores reconhecem que ainda faltam estudos específicos capazes de definir a quantidade ideal de proteína para pessoas em uso de terapias baseadas em GLP-1. A recomendação foi construída a partir de consenso de especialistas e de evidências obtidas em outros contextos de restrição energética e perda de peso.


🚨 Aqui fazemos uma ressalva.


Na nossa prática, consideramos mais simples trabalhar, na maioria dos casos, com aproximadamente 0,8 a 1,0 g de proteína por quilo de peso atual, com ajustes conforme idade, treinamento, ingestão energética, tolerância alimentar e condição clínica.


O uso do peso ajustado acrescenta uma etapa de cálculo que nem sempre modifica a conduta de forma relevante. Em muitos casos, os valores obtidos acabam próximos. A aparente precisão da fórmula pode desviar a atenção de aspectos mais importantes, como a quantidade que a paciente consegue consumir, a regularidade da ingestão e a presença de treinamento resistido.


Uma paciente que consome cerca de 1,0 ou 1,1 g/kg de peso atual, treina força e mantém boa capacidade funcional não deve ser automaticamente considerada em risco por não atingir 1,5 g/kg de peso ajustado.


A ingestão proteica precisa ser interpretada dentro do conjunto da alimentação. Também devem ser avaliados a velocidade da perda de peso, a evolução da força, a presença de fraqueza, o desempenho no treino e a capacidade de realizar atividades cotidianas.


Quantidades maiores podem ser consideradas em situações específicas, como idade avançada, sarcopenia, fragilidade, ingestão energética muito baixa ou aumento da demanda associada ao treinamento. Em doença renal crônica e outras condições que exigem controle proteico, a prescrição deve seguir as recomendações específicas para a doença.


Suplemento proteico pode ajudar, sem substituir a alimentação

Saciedade precoce, náusea e aversão a determinados alimentos podem dificultar o consumo de proteínas durante o tratamento. Nessas situações, suplementos proteicos podem ser úteis para complementar a dieta.


A necessidade de suplemento não deve ser definida apenas por uma meta calculada. Primeiro é preciso entender se existem formas de melhorar a alimentação habitual, reorganizar as refeições e escolher fontes proteicas que a paciente tolere melhor.


Iogurte, leite, bebida de soja, ovos, queijo, carnes, peixes, tofu e leguminosas podem ser distribuídos ao longo do dia em porções compatíveis com o apetite. Para algumas pacientes, pequenas quantidades em mais refeições funcionam melhor do que tentar concentrar 25 ou 30 g de proteína em um único momento.


Quando o suplemento é necessário, ele funciona como complemento. Os alimentos também oferecem ferro, cálcio, vitamina B12, zinco, fibras e diversos compostos que não estão presentes em um produto proteico isolado.


Massa magra não é sinônimo de músculo

O consenso também discute a redução de massa magra durante o tratamento. Análises de estudos com terapias baseadas em GLP-1 estimam que a massa magra possa representar aproximadamente 24% a 30% do peso total perdido.


Esse dado precisa ser interpretado com cuidado. Massa magra inclui água, glicogênio, órgãos e outros tecidos. Uma redução registrada pela bioimpedância não representa necessariamente a mesma quantidade de músculo perdido.


A pergunta clínica mais importante é se houve prejuízo de força ou função.


A paciente se sente mais fraca? Passou a ter dificuldade para levantar de uma cadeira? Reduziu a carga no treinamento? Está com menor capacidade para realizar atividades diárias? A perda de peso está ocorrendo em velocidade muito elevada?


O documento propõe um acompanhamento mínimo que inclua peso, circunferência da cintura e alguma avaliação simples de função. A força de preensão manual e o teste de sentar e levantar são exemplos possíveis.


Bioimpedância e DXA podem ser úteis em pacientes com maior risco ou quando surgem sinais de perda funcional. Não há necessidade de transformar esses exames em uma obrigação frequente para todas as pessoas em tratamento.


O próprio consenso apresenta uma proporção aproximada de três partes de gordura para uma parte de massa livre de gordura como referência ilustrativa. Esse valor ainda não foi validado como uma meta universal e não deve ser usado como um critério rígido de sucesso ou falha.


Treinamento resistido continua sendo uma das principais estratégias

A discussão sobre preservação muscular não pode ficar concentrada na proteína. O treinamento resistido tem papel central na manutenção da força e da função durante o emagrecimento.



As metas gerais de atividade física, como 150 a 300 minutos semanais de exercício aeróbico e fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana, devem ser construídas de forma progressiva.


Para uma paciente sedentária, o início pode envolver caminhadas curtas, redução do tempo sentado e exercícios simples de força. A progressão precisa considerar dor, limitações físicas, experiência prévia, preferências e capacidade de recuperação.


Prescrever uma meta que a paciente não consegue sustentar tem pouca utilidade. Uma estratégia possível, regular e progressiva tende a contribuir mais para a função do que uma recomendação idealizada que nunca sai do papel.


Sintomas gastrointestinais não devem ser naturalizados

Náusea, refluxo, constipação, diarreia e vômitos estão entre os efeitos adversos mais frequentes das terapias baseadas em incretinas. Eles costumam surgir ou se intensificar durante o aumento das doses.

A titulação gradual pode melhorar a tolerância. Quando os sintomas são relevantes, a equipe pode avaliar o adiamento do aumento, o retorno à dose previamente tolerada ou uma pausa temporária.


Na presença de náusea e saciedade precoce, refeições menores costumam ser melhor toleradas. Preparações muito gordurosas podem piorar o desconforto. Algumas pacientes se beneficiam de alimentos frios ou em temperatura ambiente, especialmente quando os odores desencadeiam náusea.


Também pode ser útil evitar grandes volumes de líquidos junto às refeições e priorizar alimentos com maior densidade nutricional. A paciente não precisa ser orientada a comer grandes quantidades para cumprir uma meta. O planejamento deve respeitar a tolerância e aproveitar melhor o volume alimentar disponível.


Constipação exige mais do que recomendar fibras

O consenso utiliza como referência uma ingestão próxima de 25 g de fibras por dia. Essa quantidade pode ser difícil de atingir quando o consumo energético caiu de forma acentuada.


Frutas, vegetais, feijão, lentilha, grão-de-bico, aveia e cereais integrais devem ser priorizados. Kiwi e ameixa também podem ser utilizados em algumas situações.


O aumento precisa ser gradual. Introduzir uma grande quantidade de fibras em uma paciente com baixo consumo de líquidos pode piorar gases, distensão e desconforto.


A avaliação deve incluir hidratação, movimento, consistência das fezes, frequência evacuatória e uso de medicamentos que interferem no funcionamento intestinal. O psyllium pode ser considerado quando as estratégias alimentares são insuficientes, com introdução progressiva e ingestão adequada de líquidos.


A recomendação geral de hidratação apresentada no consenso fica em torno de 2,0 a 2,5 litros por dia. Esse valor deve ser ajustado conforme clima, atividade física, sudorese, doença renal, insuficiência cardíaca e presença de vômitos ou diarreia.


Vômitos persistentes e deficiência de tiamina

Vômitos prolongados merecem avaliação clínica rápida. Além de desidratação e alterações eletrolíticas, eles podem reduzir intensamente a ingestão alimentar e aumentar o risco de deficiência de tiamina.


Os estoques corporais dessa vitamina são limitados. Casos graves já foram descritos em pessoas com vômitos persistentes durante o uso de semaglutida, embora sejam eventos incomuns.


Quando a paciente não consegue manter hidratação e alimentação, a conduta nutricional isolada não é suficiente. A equipe pode precisar avaliar reposição de líquidos, suplementação de tiamina, investigação laboratorial e ajuste do medicamento.


Queda de cabelo deve levar à investigação da perda de peso

A perda rápida de peso, independentemente do método utilizado, pode desencadear eflúvio telógeno.

Ainda existem poucas evidências para afirmar que os agonistas de GLP-1 causem alopecia diretamente. A queda de cabelo deve servir como um sinal para revisar a velocidade do emagrecimento, o valor energético da dieta, a ingestão proteica e a adequação de ferro, zinco e folato.


Avaliação tireoidiana e de andrógenos pode ser considerada quando houver outros sinais clínicos ou persistência do quadro.


Indicar uma fórmula para cabelo sem investigar a alimentação e o ritmo da perda de peso corre o risco de tratar apenas a manifestação mais visível.


O comportamento alimentar continua fazendo parte do tratamento

A redução da fome e dos pensamentos persistentes sobre comida costuma ser percebida como um dos efeitos mais marcantes dos medicamentos baseados em incretinas.


Para algumas pacientes, isso facilita a percepção de fome e saciedade. Para outras, surgem mudanças na forma de lidar com emoções, eventos sociais e situações em que a comida funcionava como conforto ou recompensa.


O acompanhamento precisa observar restrição alimentar excessiva, medo de comer, foco desproporcional no peso, perda de controle alimentar, vômitos provocados e expectativas rígidas em relação ao medicamento.


Também é importante conversar sobre o que acontece quando a fome retorna, quando o peso estabiliza ou quando o tratamento é interrompido. Trabalhar comportamento alimentar não significa ensinar a paciente a resistir ao medicamento. Significa ajudá-la a manter uma alimentação adequada e desenvolver recursos que continuem úteis quando o efeito farmacológico se modificar.


O consenso sugere que perguntas breves sobre comportamento alimentar e saúde psicológica façam parte do acompanhamento. Avaliações mais estruturadas e encaminhamento para psicologia ou psiquiatria ficam reservados para situações de maior complexidade.


Saúde óssea entra no acompanhamento de pacientes com maior risco

A perda de peso pode ser acompanhada de redução da densidade mineral óssea. Essa questão merece atenção especial em mulheres após a menopausa, pessoas idosas, pacientes com histórico de fraturas, baixo consumo de cálcio, deficiência de vitamina D ou risco aumentado de quedas.


A estratégia inclui adequar a alimentação, corrigir deficiências quando presentes e estimular treinamento resistido e exercícios com sustentação do peso corporal.


Cálcio e vitamina D não precisam ser suplementados automaticamente. A decisão deve considerar ingestão alimentar, exames, idade e risco individual.


O peso não pode ser o único desfecho

Uma paciente pode perder peso e apresentar fraqueza, queda de cabelo, baixa ingestão de proteínas, constipação importante ou piora da relação com a comida.


Por isso, acompanhar apenas a balança é insuficiente.


A avaliação deve considerar a qualidade da alimentação, os sintomas gastrointestinais, a ingestão de proteínas e micronutrientes, a hidratação, a força, a capacidade funcional, a atividade física e o comportamento alimentar.


Esse é o principal recado do novo consenso. O uso de GLP-1 faz parte de um tratamento mais amplo. A medicação reduz a ingestão e facilita a perda de peso. O acompanhamento nutricional ajuda a definir se essa perda está acontecendo de uma forma compatível com saúde, funcionalidade e manutenção no longo prazo.


Também é importante reconhecer as limitações do documento. Muitas propostas relacionadas à quantidade de proteína, à proporção entre gordura e massa magra, ao treinamento resistido e à suplementação ainda se apoiam em consenso de especialistas e em dados extrapolados de outros tratamentos para obesidade.


Essas recomendações podem orientar a prática. Elas não precisam ser convertidas em regras universais nem em cálculos excessivamente específicos.


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1 comentário


Joline Dalla Vecchia
Joline Dalla Vecchia
08 de ago.

Todos os tópicos perfeitamente descritos para nos ajudar na construção de um raciocínio amplo, para aumentar o repertório e poder acolher cada caso e suas particularidades!

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