GLP-1 na gestação: o que uma nova meta-análise revela sobre segurança materna e fetal
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O sobrepeso e a obesidade antes da gestação aumentam significativamente o risco de complicações para a mãe e para o bebê. O excesso de peso está associado a maior risco de diabetes mellitus gestacional, pré-eclâmpsia e parto cesáreo. Para o bebê, aumenta a probabilidade de macrossomia, malformações congênitas, obesidade infantil e outras complicações relacionadas ao excesso de peso.

Legenda: repercussões do diabetes gestacional (na mãe), uma intercorrência comum da obesidade gestacional.
Por isso, quando uma mulher com obesidade deseja engravidar, o emagrecimento pré-gestacional é o primeiro passo, com o objetivo de reduzir os riscos cardiometabólicos maternos e melhorar os desfechos da gestação.
O uso de GLP-1 antes e durante a gestação: o que recomendam as diretrizes
Os agonistas do receptor de GLP-1 oferecem importantes benefícios metabólicos e cardiovasculares fora da gestação. No entanto, as evidências sobre sua segurança durante a gravidez ainda são limitadas. Atualmente, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) recomenda:
Interromper a semaglutida dois meses antes da concepção
Interromper a tirzepatida um mês antes da concepção
Suspender o uso dos agonistas do receptor de GLP-1 caso a gestação seja confirmada durante o tratamento, devido à ausência de evidências robustas sobre sua segurança nesse período
O que revelou a meta-análise de 2026 sobre GLP-1 na gestação
Em junho de 2026, foi publicada uma revisão sistemática com meta-análise de estudos observacionais que investigou a associação entre a exposição aos agonistas do receptor de GLP-1 durante a gestação e os desfechos maternos e fetais, em comparação com outros medicamentos antidiabéticos.

Entre as mulheres expostas aos agonistas do receptor de GLP-1, apenas 21% utilizaram a medicação durante o período periconcepcional (até o primeiro trimestre da gestação), enquanto as demais haviam utilizado o medicamento apenas antes da concepção.
Desfechos maternos
Os autores observaram que a exposição aos agonistas do receptor de GLP-1 esteve associada a uma redução de 28% na chance de desfechos maternos adversos quando comparada às demais terapias antidiabéticas. Também foi observado um risco 34% menor de parto prematuro entre as mulheres expostas ao GLP-1 em comparação às demais terapias.
Segurança fetal
Em relação à segurança fetal, não foi encontrada associação entre a exposição aos agonistas do receptor de GLP-1 e a ocorrência de malformações congênitas maiores quando comparada aos demais agentes antidiabéticos. Quando a comparação foi realizada exclusivamente com a insulina, também não houve diferença entre os grupos.

Mas calma, há limitações. Entenda esses dados na prática:
Apesar de serem dados promissores, é fundamental que você compreenda os limites dessa evidência. A análise foi baseada em estudos observacionais e incluiu apenas quatro estudos, o que limita a robustez das conclusões. Os achados refletem associações observacionais, não evidências estabelecidas de segurança ou benefício terapêutico durante ou antes da gestação, e não devem ser interpretados como relações causais.
Outros pontos de atenção:
Viés de seleção: a maioria dos estudos incluiu apenas nascidos vivos, podendo subestimar riscos relacionados a perdas gestacionais precoces ou à interrupção da gestação
Momento da exposição: a meta-análise não conseguiu avaliar adequadamente as diferenças entre o uso antes da concepção e o uso no início da gestação
Perfil de risco das pacientes: as pacientes estudadas não eram mulheres saudáveis, mas sim com perfis metabólicos já comprometidos e riscos diferentes.
Ausência de dados a longo prazo: não há informações sobre a saúde metabólica e desenvolvimento dos filhos.
O que esses achados significam na prática clínica?
Apesar da recomendação de suspender os agonistas do receptor de GLP-1 antes da concepção, esses dados, embora ainda limitados, fornecem evidências iniciais de que a exposição durante a gestação, especialmente no período periconcepcional, não esteve associada ao aumento de desfechos fetais adversos. No entanto, esses resultados não são suficientes para estabelecer a segurança desses medicamentos durante a gestação.
Vale destacar que o emagrecimento e a melhora da saúde metabólica podem aumentar as taxas de gravidez espontânea em mulheres com obesidade e/ou síndrome dos ovários policísticos. Dessa forma, algumas mulheres podem engravidar sem planejamento durante o tratamento com agonistas do receptor de GLP-1. Nesse contexto, esses achados oferecem um grau de tranquilidade em relação às exposições inadvertidas no início da gestação. Ainda assim, a recomendação atual permanece a mesma: suspender o tratamento antes da concepção e interrompê-lo imediatamente caso a gravidez seja confirmada.
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