Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) muda de nome: entenda a nova nomenclatura SOMP
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Em 12 de maio de 2026, o periódico The Lancet publicou a renomeação da Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP). A mudança de nomenclatura aconteceu agora, mas o debate sobre o nome é antigo. Isso porque o aspecto "policístico" dos ovários, frequentemente observado em pacientes com Síndrome dos Ovários Policísticos, é causado pelo acúmulo de folículos ovarianos em diferentes estágios de maturação e/ou atresia.
Os folículos ovarianos são agregados celulares que contêm um único oócito e não são cistos. Em termos médicos, cistos são sacos ou cavidades membranosas de caráter anormal que contêm líquido. Portanto, o nome "Síndrome dos Ovários Policísticos" pode ser considerado um equívoco terminológico, que infelizmente desvia a atenção da verdadeira fisiopatologia da síndrome.
Os critérios de Rotterdam estabelecem que o diagnóstico de SOP exige a presença de pelo menos dois dos três critérios a seguir, após a exclusão de outras condições capazes de causar sintomas semelhantes:
Oligo ou anovulação
Hiperandrogenismo
Morfologia ovariana policística

Ou seja, além de não envolver a presença de cistos propriamente ditos, a morfologia ovariana policística sequer é um critério obrigatório para o diagnóstico de SOP.
Por que a Síndrome dos Ovários Policísticos mudou de nome?
A nomenclatura "Síndrome dos Ovários Policísticos" foi proposta a partir das observações de Stein e Leventhal, em 1935, que descreveram alterações morfológicas ovarianas presentes em um grupo de pacientes. Embora esse termo tenha sido amplamente utilizado por quase um século, ele não acompanha a evolução do conhecimento sobre a síndrome. Veja as principais razões da mudança:
Ausência de cistos
Na Síndrome dos Ovários Policísticos, não há cistos patológicos nos ovários, mas sim o acúmulo de folículos antrais. Esse fenômeno ocorre, em parte, devido à falha na seleção do folículo dominante, relacionada a alterações na dinâmica gonadotrófica, incluindo o aumento da razão LH/FSH. Como consequência, há prejuízo do desenvolvimento folicular, da ovulação e, consequentemente, da fertilidade, uma das manifestações mais frequentes da síndrome.
Um critério que nem sempre está presente
A nomenclatura antiga reduzia a condição a apenas um dos critérios diagnósticos, que sequer é obrigatório para o diagnóstico. Como já mencionado, uma mulher pode preencher os critérios para SOP sem apresentar morfologia ovariana policística.
Uma condição multissistêmica, não apenas ovariana
Atualmente, a SOP é reconhecida como uma condição multissistêmica. Em 2025, Zhang e colaboradores discutiram uma questão central para a compreensão da doença: a SOP é essencialmente uma doença metabólica com consequências reprodutivas, uma doença ovariana com efeitos metabólicos secundários, uma doença endócrina primária com repercussões metabólicas e reprodutivas, ou uma combinação de todas essas vias?
Essa discussão reforça que a Síndrome dos Ovários Policísticos deve ser entendida como um distúrbio reprodutivo, metabólico e endócrino, resultado da interação de múltiplos mecanismos fisiopatológicos. Essa complexidade se reflete em suas diversas manifestações clínicas:
Aspectos endócrinos e metabólicos: hiperandrogenismo, resistência à insulina, aumento do risco de diabetes tipo 2 e maior predisposição à doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD).
Aspectos reprodutivos: oligoanovulação, irregularidade menstrual, infertilidade anovulatória e maior risco de complicações gestacionais, como pré-eclâmpsia, diabetes gestacional e prematuridade.
Aspectos cardiovasculares: aumento do risco de doença cardiovascular, infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral.
Aspectos psicológicos e dermatológicos: maior prevalência de depressão, ansiedade, transtornos alimentares e redução da qualidade de vida, além de manifestações clínicas como acne, hirsutismo e alopecia androgenética.

Dessa forma, a mudança para o termo Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP) busca refletir de maneira mais precisa a natureza sistêmica da condição, reconhecendo que suas manifestações vão muito além dos ovários.
O que significa a nova nomenclatura SOMP?
A nova denominação foi proposta para representar de forma mais fiel os principais mecanismos envolvidos na condição e suas múltiplas manifestações clínicas.
Por que o termo "ovariana" foi mantido:
O termo "ovariana" foi mantido porque o ovário continua desempenhando um papel importante na síndrome. Além das alterações reprodutivas, como a disfunção ovulatória e a infertilidade anovulatória, o ovário é uma importante fonte da produção excessiva de andrógenos observada em muitas mulheres com a condição. Dessa forma, o termo contempla tanto os aspectos reprodutivos quanto as alterações hormonais ovarianas que caracterizam a síndrome.
Por que "metabólica" entrou no nome:
A inclusão da palavra "metabólica" reconhece que a condição vai muito além do sistema reprodutivo. Atualmente, sabe-se que mulheres com SOP apresentam maior risco de resistência à insulina, diabetes tipo 2, obesidade, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica e complicações cardiovasculares. Em muitos casos, as alterações metabólicas estão presentes desde fases precoces da vida e contribuem diretamente para a progressão e a gravidade da síndrome.
Por que "poliendócrina" descreve melhor a condição:
Já o termo "poliendócrina" reflete a participação simultânea de múltiplos sistemas hormonais na fisiopatologia da síndrome. A SOP não resulta de uma alteração isolada dos ovários, mas da interação complexa entre diferentes órgãos e eixos endócrinos. Entre as principais alterações observadas estão o aumento da frequência dos pulsos de GnRH no hipotálamo, a elevação da razão LH/FSH na hipófise, a produção aumentada de andrógenos pelos ovários e pelas adrenais e a resistência à insulina associada à hiperinsulinemia compensatória.
Portanto, a nova nomenclatura procura traduzir um conceito que já está consolidado na literatura científica: trata-se de uma condição sistêmica, na qual fatores reprodutivos, metabólicos e endócrinos estão profundamente interligados e contribuem conjuntamente para o desenvolvimento e a manutenção da síndrome.
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Referências
Escobar-Morreale HF. Polycystic ovary syndrome: definition, aetiology, diagnosis and treatment. Nat Rev Endocrinol. 2018.
Zhang Y, Chen ZJ, Zhao H. Polycystic ovary syndrome: A metabolic disorder with therapeutic opportunities. Cell Metab. 2025.
Teede H, Khomami M, Morman R et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process The Lancet, 2026.


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