top of page
símbolo.png

GLP-1 e câncer de mama: o que diz o novo estudo da Universidade da Pensilvânia

  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

A relação entre GLP-1 e câncer de mama ganhou um dado importante em junho de 2026. Um estudo publicado na JCO Oncology Practice e apresentado no congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO) encontrou menor incidência de câncer de mama entre mulheres usuárias de agonistas do receptor de GLP-1. A análise avaliou mais de 110 mil mulheres entre 45 e 80 anos e observou cerca de 30% menos diagnósticos de câncer de mama entre as usuárias desses medicamentos em comparação às não usuárias.


A resposta curta, para quem busca de forma direta: o estudo associou o uso de GLP-1 a uma incidência menor de câncer de mama, mas é uma associação observacional, não uma prova de que o medicamento previne a doença. O texto abaixo detalha os números, os mecanismos biológicos propostos e por que essa diferença entre associação e causalidade importa tanto na hora de orientar pacientes.


O que são os agonistas de GLP-1

Os agonistas do receptor de GLP-1 são medicamentos como semaglutida, liraglutida e tirzepatida (esta última um agonista duplo GLP-1/GIP). Atuam ativando receptores das incretinas, hormônios intestinais que aumentam a secreção de insulina após as refeições, reduzem a ingestão alimentar e diminuem a glicemia. São usados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, e promovem perda de peso significativa.


Locais de ação das canetas de tratamento da obesidade.

O interesse oncológico surge justamente daí. O excesso de peso é um dos principais fatores de risco modificáveis para o câncer de mama, então faz sentido investigar se medicamentos que reduzem peso também reduziriam o risco de cânceres relacionados à gordura corporal.


Como o estudo sobre GLP-1 e câncer de mama foi conduzido

Os pesquisadores analisaram registros eletrônicos de 111.646 mulheres de 45 a 80 anos com índice de massa corporal igual ou superior a 25 kg/m², que realizaram exame de imagem mamária com desfecho documentado no sistema de saúde da Penn Medicine entre janeiro de 2022 e junho de 2025. Dessas, 15.264 (13,7%) tinham prescrição registrada de GLP-1 e 96.382 (86,3%) não tinham exposição documentada.


A análise foi feita em duas etapas. Na amostra completa, o uso de GLP-1 associou-se a um odds ratio de 0,649 (IC 95% 0,569 a 0,741), uma redução de cerca de 35% na chance de diagnóstico. Em seguida, para reduzir fatores de confusão, os autores aplicaram um pareamento por escore de propensão, emparelhando cada usuária de GLP-1 com uma não usuária de mesma idade, raça, etnia, maior IMC, densidade mamária e história de diabetes tipo 2. Nessa análise pareada, com 30.528 mulheres, o odds ratio foi de 0,695 (IC 95% 0,590 a 0,819; p < 0,0001), uma redução relativa de aproximadamente 30%.


Em números absolutos, a taxa de câncer foi de 1,62% entre as expostas e de 2,31% entre as não expostas pareadas, com redução de risco absoluto de 0,69%. O efeito se manteve nos subgrupos de mulheres negras e brancas e entre mulheres com e sem diabetes tipo 2.


Por que obesidade e câncer de mama estão conectados

Para interpretar esse resultado, é preciso entender por que o tecido adiposo influencia o risco de câncer de mama, principalmente na pós-menopausa. Os mecanismos mais descritos na literatura são:

  • Produção de estrogênio pelo tecido adiposo: após a menopausa, o tecido adiposo se torna a principal fonte de estrogênio, pela aromatização de andrógenos. Em mulheres menopausadas com obesidade, o principal mecanismo do aumento de risco de câncer de mama é justamente a elevada produção de estrogênio pelo tecido adiposo.

  • Resistência à insulina e hiperinsulinemia: a insulina induz a atividade da aromatase e a produção de estrogênio no tecido adiposo, além de estimular diretamente o crescimento e a invasão de células de câncer de mama.

  • Inflamação de baixo grau: o aumento do tecido adiposo visceral expõe a mulher a níveis mais altos de hormônios sexuais, resistência à insulina e inflamação de baixo grau, que afetam as células mamárias de forma direta e indireta.


É por essa rede de mecanismos que a perda de peso entra como estratégia de redução de risco, e por que os GLP-1 passaram a ser estudados nesse contexto.


Quais mecanismos biológicos foram propostos para o GLP-1

Os autores citam mecanismos pré-clínicos que poderiam explicar um efeito protetor. É importante registrar que esses dados vêm de estudos em células e em modelos animais, não de humanos:


  • Ativação da AMPK: análogos de GLP-1 como exendina-4 e liraglutida ativam a AMPK em células de câncer de mama, prejudicando o metabolismo glicolítico tumoral (efeito Warburg) e reduzindo a proliferação celular.

  • Inibição de DNA-metiltransferases: a liraglutida inibiu a proliferação de diferentes linhagens de células de câncer de mama, em parte por inibir essas enzimas.

  • Redução da inflamação sistêmica: como a inflamação é uma característica do câncer, a propriedade anti-inflamatória dos GLP-1 desperta interesse na oncologia.


Esquema mostrando tecido adiposo, estrogênio, resistência à insulina e inflamação como mecanismos associados ao risco de câncer de mama.

Um detalhe metodológico relevante: no modelo com tirzepatida em camundongos, a inibição do crescimento tumoral foi atribuída principalmente à perda de peso, já que uma dieta com restrição calórica produziu efeito semelhante. Isso sugere que parte do benefício pode ser mediada pela redução de peso, e não por um efeito antitumoral direto da medicação.


GLP-1 reduz o risco de câncer de mama? O que o estudo ainda não pode afirmar

Esta é a pergunta que mais aparece nas buscas, e a resposta exige cautela. Trata-se de um estudo observacional, e os próprios autores classificam os resultados como geradores de hipótese. A autora principal, Elizabeth McDonald, afirma que o estudo é observacional e não confirma de forma definitiva a associação entre os medicamentos GLP-1 e a redução da incidência de câncer de mama, mas soma ao corpo crescente de evidências que justifica investigar esses medicamentos como possíveis ferramentas de prevenção.


Os principais limites são:

  • É associação, não causalidade. O desenho não permite afirmar que o GLP-1 reduz o câncer de mama, apenas que o uso esteve associado a uma incidência menor.

  • Dose e duração não foram avaliadas. Não houve análise de tempo de tratamento nem de dose, e não se exigiu tempo mínimo de terapia.

  • Possível viés de rastreamento. Usuárias de GLP-1 costumam ter mais contato com serviços de saúde e mais exames, o que pode aumentar a detecção de câncer.

  • Possível contaminação do grupo controle. Parte das mulheres sem exposição pode ter obtido a medicação fora do sistema de saúde. Se isso ocorreu, tenderia a atenuar a diferença observada, não a aumentá-la.


Os autores comparam a magnitude do efeito ao do tamoxifeno em estudos iniciais, que reduziu a incidência em cerca de 38%. A diferença está no perfil de segurança: o tamoxifeno aumenta o risco de câncer de endométrio e de eventos tromboembólicos, enquanto os GLP-1 têm eventos adversos mais brandos, predominantemente gastrointestinais, com aumento de cerca de 1,5 vez em eventos de vesícula e vias biliares.


O que esperar das próximas pesquisas

A conclusão do estudo aponta o caminho: os resultados são promissores, porém preliminares, e quem pode responder se existe benefício preventivo de fato é um ensaio clínico randomizado. Os autores propõem investigar desfechos amplos em saúde da mulher, incluindo doença cardiovascular e sintomas associados à menopausa.


O tema acompanha um movimento mais amplo de pesquisa. Revisões recentes apontam que, com poucas exceções, as metanálises atuais não mostram aumento da incidência de câncer com terapias com GLP-1, e em alguns casos sugerem redução de risco. Ainda assim, permanecem incertezas, e não há consenso sobre conduta nutricional durante o uso desses medicamentos. Por enquanto, o GLP-1 não é, e não deve ser apresentado como, medicamento para prevenção de câncer de mama.


Se você é nutricionista e deseja atender mulheres que utilizam análogos de GLP-1 com autonomia, conheça o curso Análogos de GLP-1 na Saúde da Mulher.




Referências

  1. McDonald ES, Gillis LB, Gabriel P, et al. GLP-1 agonists are associated with a significant reduction in breast cancer incidence in women. JCO Oncol Pract. 2026. DOI: 10.1200/OP-26-00485.

  2. Iyengar NM, Gucalp A, Dannenberg AJ, Hudis CA. The Interactions of Obesity, Inflammation and Insulin Resistance in Breast Cancer.

  3. Brown KA. Obesity and Postmenopausal Hormone Receptor-positive Breast Cancer: Epidemiology and Mechanisms. Endocrinology. 2021;162(12):bqab195.

  4. Yabut JM, Drucker DJ. Glucagon-like peptide-1 medicines and cancer. Nat Cancer. 2026;7:260–271.

  5. Renehan AG, Pollak MN. Appetite, Obesity, Metabolism, and Malignancy: Do Incretin-Mimetic Drugs Reduce Cancer Risk? Cancer Prev Res. 2026.

 
 
 

Comentários


bottom of page